Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Esquecendo de esquecer

Acho engraçada a forma com que meu coração dispara quando leio o que você escreve.
Tento não ler, não ver, não sentir, não me importar, ignorar...
Mas algo em mim insiste teimosamente em manter algum tipo de vínculo contigo, nem que seja tão vago e sombrio quanto vê-la escrever coisas para outro que, um dia, você escreveu para mim.
Essa espécie de descontrole miocárdico costuma se dar de manhã, quando ainda estou perdido entre o sonho e a realidade.
Talvez seja saudade, preocupação, desejo de saber de você, das suas coisas, seus desejos, seus projetos, seus sonhos e realizações.
Um não fazer de você algo morto, esquecido, desprezado, perdido em algum lugar de um distante passado.
O bom senso me aconselha diariamente a agir de forma contrária, mas o que fazer quando o amor supera o temor?

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

O sim e o não

Prefiro simplesmente ignorá-lo, fazer de conta que ele não existe, que nunca o conheci, que nunca nos amamos.
Prefiro esquecer de que tantas vezes já estivemos juntos sob as mesmas cobertas, sobre a mesma cama, sob o mesmo teto.
Quero esquecer do encaixe absolutamente perfeito do nosso beijo, dos passeios que fizemos juntos, das vezes em que rimos de pura felicidade e gozamos de puro prazer.

Vou esquecer dos nossos planos, das alianças que um dia trocamos, das viagens que juntos fizemos e daquela vez em que ele me preparou o café da manhã enquanto eu me demorava no banheiro.
Prefiro deixar no passado o fato de eu tê-lo presenteado com meu vestido e uma orquídea rosada.
Não quero mais lembrar de que encontrei o amor da minha vida, um homem complexo, inteligente e problemático do jeito que eu gosto.
Nem que um dia fui dele como nunca fui de ninguém.

Se ele ainda me ama é problema dele, se ele ainda vê em mim a mulher que sempre procurou que encontre outra.
Se ele ainda pensa em mim diariamente com a saudade de sempre, que esvazie seus pensamentos e torne-se frio.
Se ele sente seu corpo trêmulo toda vez que ouve meu nome, que me chame de “morta”.

Prefiro esquecer de tudo o que passamos juntos, as coisas boas e as ruins, me entregar para outro, caminhar em novas estradas, atravessar outros oceanos e negar, enquanto persistir em meu peito, o fato de que eu ainda o amo.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Porta retratos

Os ruídos começaram exatamente às seis da manhã, quando eu estava completamente envolvido em algum dos meus sonhos surreais.
Eu acordei sobressaltado com o barulho de marteladas e serras elétricas cortando algum tipo de metal.
As paredes do meu pequeno quarto tremiam na medida em que os sons se aproximavam da porta.

Eu estava ali, amedrontado sob as cobertas sem coragem de sair da cama e finalmente certificar-me de que tudo aquilo não passava apenas de mais uma reforma no vizinho.
Uma pequena nuvem de poeira avermelhada invade meu quarto por debaixo da porta tornando meu ar irrespirável, os ruídos metálicos cada vez mais pertos e cada vez mais altos.
Reúno o que resta das minhas forças e da minha coragem num balbucio hesitante;
_Quem está aí?!

A maçaneta da porta se move, marteladas nos batentes, a nuvem de poeira como uma espessa camada de neblina cobrindo meus utensílios que despencam das prateleiras espatifando-se no chão agora coberto de pó.
A porta do meu quarto abre-se violentamente.
Os barulhos cessam imediatamente.

Acordo completamente suado numa linda manhã se Sol.
O frescor do ar dominical, a porta trancada, silêncio tumular e meu porta-retratos repousa misteriosamente em mil pedaços aos pés da cama.

Sábado, 13 de Junho de 2009

Profanas sinestesias

Depois de você minhas paletas ganharam sete novas cores mas, apesar dos meus pincéis luxuosamente ornados com crina imperial, não colorem mais minhas telas.
Após provar do seu beijo todas as bocas secaram como rios sem nascente, como desertos sem oásis.
Depois do seu toque todos os afagos tornaram-se lúgrebes, frios, ásperos, inertes, desnecessariamente incompletos...
Após sua definitiva invasão, meu coração tornou-se território perene, trancado, entregue, único, vagando rendido em intensas águas perdidas.
Após sua chegada não procurei mais fugir, não temi mais as sombras da solidão nem os espinhos do destino.

Após sua partida restou-me algo que de tão ínfimo, no microcosmo que me deixaste, nem sei definir.
Uma sombra furtiva, lençóis amassados jogados na cama, noites sem Lua, dias sem Sol...
Oceanos tão imensos quanto imenso e profundo é o amor que ainda sinto por ti.
E que de tão infinito estará sempre em busca de tocar o teto do universo que um dia te prometi.
Minha estrela.
Minha orquídea.

Meu amor...

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Um dia qualquer

Acordo em mais um daqueles meus estranhíssimos horários exóticos.
Água fervendo na chaleira de lata, vapores embaçando as vidraças ainda geladas da cozinha.
As mãos nos bolsos na vã tentativa de torná-las quentes como o café que agora perfuma o ar matinal.
Na televisão o noticiário de sempre; aviões que despencam do céu, tempestades que alagam cidades inteiras, famosos que adotam crianças vietnamitas, políticos e seus castelos de grana roubada.
Meu computador pede minhas senhas enquanto carrega mil programas ocultos.
Procuro música erudita nas pastas para combinar com o clima melancólico das manhãs em Minas Gerais.
O Sol invade a janela da sala me convidando a largar o trabalho por apenas um dia e tratar de passear no Parque das águas.
Mas agora não posso...Meus prazos são apertados, meus clientes ranzinzas, meus dias longos e minha paciência é curta.

Está na hora de fazer as malas e fujir para o Chile.
Ou quem sabe comer um pouco menos de chocolate com pimenta...

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Live with me


Terça-feira, 19 de Maio de 2009

O dia em que morri

O calor era insuportável.
Minha sensação era de que eu estava aprisionado em um enorme forno industrial, e não haviam defesas contra aquilo além de suar 24 horas por dia e perder o fôlego a cada passo que eu dava.
Não existia nenhum resquício de beleza naquele lugar, as ruas eram tortas e esburacadas, o lixo espalhava-se por todos os cantos, as pessoas eram brutas e desconfiadas, perambulavam pelas esquinas como zumbis sem destino em busca de uma redenção ilusória.

Seus problemas eram resolvidos com ameaças de morte e grunhidos animalescos, eu tinha a nítida sensação de que seus cérebros e suas almas haviam sido cozidos na ininterrupta fornalha que circundava aquele lugar.
Os poucos amigos que ali conquistei tornaram-se inimigos mortais, a mulher que, antes mostrava-se tão doce e suave, a que eu amava de uma forma celestial, juntou-se a horda de zumbis disformes fazendo da minha estada ali um daqueles pesadelos em que não conseguimos fugir dos monstros que nos perseguem sedentos de nossa carne e do nosso sangue.

Por mais que eu tentasse me abster, relevar, compreender, ter em mente o meu real habitat, as minhas raízes, as minhas convicções mais sublimes, por mais que eu tentasse ser forte, não conseguia escapar de uma fúria insana que fazia parte daquele lugar como os buracos cobertos de lama fétida que se espalhavam por todos os cantos.
Não havia onde se esconder...
Não havia como fugir.

Então um dos monstros que habita em mim despertou pela familiaridade que encontrou ao ouvir os urros vindos das ruas e me devorou de dentro pra fora.
O calor cozinhou meu cérebro e minha alma, tornei-me um deles, e naquele dia morreu o homem que um dia fui...